A escritora e pesquisadora Carla Akotirene, natural da Bahia, expressou sua preocupação com a redução da discussão sobre racismo a uma visão superficial, durante sua palestra no 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (Copene), realizado na Universidade de Brasília (UnB). Ela lamentou que a complexidade do problema seja frequentemente reduzida a ofensas como “chamar alguém de macaco”.
Racismo estrutural e suas manifestações
Akotirene ressaltou que o racismo se manifesta de maneira estrutural e institucional, e não apenas por meio de xingamentos visíveis em vídeos. Ela destacou que, em ambientes como unidades de saúde e penitenciárias, a discriminação racial e de gênero acontece cotidianamente, porém sem documentação. “Essas situações não são filmadas”, explicou, apontando que em prisões, por exemplo, a falta de celulares impede que essas violências sejam registradas.
A realidade nas penitenciárias
A pesquisadora compartilhou sua experiência em uma pesquisa etnográfica em uma penitenciária feminina na Bahia, afirmando que “quanto pior é a cadeia, maior é a função racista no tempo”. Akotirene enfatizou a necessidade de um maior entendimento sobre a lei de execução penal no Brasil, pois muitos desconhecem as regras que regem o tratamento dos detentos, especialmente no que diz respeito à violência contra mulheres encarceradas.
Violência de Estado e a subalternização das mulheres negras
Ela também abordou como o Estado perpetua uma estrutura de violência contra pessoas em situação de privação de liberdade. “Uma mulher vítima de violência não tem como gritar; ela está sob o controle do agressor, que é o próprio Estado”, afirmou, ressaltando que mulheres negras continuam a ser subalternizadas e escravizadas pelo patriarcado.
Objetivos do 14º Copene
O Congresso, que se estenderá até sexta-feira (31), tem como finalidade discutir projetos de pesquisa e extensão relacionados às relações étnico-raciais no Brasil. A programação inclui debates sobre a realidade social do país e a valorização de experiências que fortalecem a luta antirracista em diversas comunidades.
Reflexões sobre a luta antirracista
Carla Akotirene também compartilhou sua trajetória, destacando que foi a primeira de sua família a ingressar no ensino superior. “Estamos aqui porque o movimento negro reconfigurou as universidades públicas”, afirmou, refletindo sobre o custo dessa luta: “Quantas vidas foram perdidas para que pudéssemos ter esse espaço?”
Ela criticou o sistema judicial, observando que, desde os policiais até os magistrados, há uma tendência de criminalizar pessoas pardas e pretas. “A polícia entra em nossa comunidade e pergunta quem vai assumir a droga. O nosso povo é submetido à tortura, especialmente à noite”, descreveu, destacando a urgência de um olhar mais profundo sobre as questões raciais no Brasil.
Akotirene finalizou sua fala ressaltando a importância de um movimento contínuo e consciente na luta contra o racismo, que vai muito além de ações superficiais e momentâneas.







